O jornalista Luis Nassif esteve em Pernambuco e registrou suas impressões:
Trivial da Nação Pernambuco
São 2:08 em São Paulo / 01:08 em Recife. Acabei de chegar ao hotel com os fluidos da Noite dos Tambores Silenciosos invadindo todos meus poros. Uma cerimônia inesquecível, onde todos os deuses africanos aparecem sem a sensualidade das divindades baianas, mas com uma intensidade espiritual de inundar a alma.
Tão intensa que, ao meu lado no camarote, mesmo com todos seus problemas de saúde Milton Nascimento suportou mais de duas horas de pé.
É uma profusão de Nações Maracatu, crianças, moços, velhos, pais-de-santo, ritmistas espalhando a cultura pernambucana pelo espaço.
Faz pouco tempo que Pernambuco recuperou a auto-estima, a fé na sua cultura popular, em grande parte graças a Chico Science. De lá para cá, os maracatus, afoxés se espalharam pela cidade, novos grupos se unindo a Nações de mais de duzentos anos.
A negritude baiana é específica da Bahia. A pernambucana parece estar na essência do Brasil. A profusão de cores, a batida sincopadíssima do maracatu, a multidão de pessoas de todas as idades cantando os hinos, os frevos, os pontos.
A nação Pernambuco é o Brasil.
PS - Peço desculpas pela enxurrada de comentários que deixei pendente para aprovação. Amanhã acordarei com a alma limpa pelos santos pernambucanos, e com o sono em dia, para liberar os comentários.
Comentário de Lucas Jerzy Portela
É que Pernambuco é a Capital Miscigenada, a Civilização Mameluca, por excelência.
A Bahia, não: o Recôncavo é o berçário da diáspora negra; Salvador, a maior cidade negra do planeta!
Você já foi ver o Ilê Ayê subir o Curuzu no sábado de Carnaval, Nassif?
Pra mim, é tão arrepiante quanto a Noite Dos Tambores Silênciosos: o segundo maior bairro negro das américas, e do hemisfério sul, lotando sacadas e ruas pra gritar bem alto que eles, sim, são a diáspora e não esquecem. A música desse ano, com o refrão “Negra Poderosa Do Ilê”, e o tema Candaces, é de me fazer chorar sempre que lembro do sábado passado…
Se nunca foi, fica aí o convite. Fora que é a coisa mais segura do carnaval de Salvador…
Comentário de Cida Medeiros
Nassif,
Em Pernambuco, em Alagoas e outras localidades próximas, você vê a presença da cultura do índio mesclada ao que o negro trouxe. Acredito que seja nestes Estados que se possa sentir o resultado das misturas de tambores do oriente e do ocidente tão nítida. É especial porque as danças tribais destes povos tem a ver com alegria, prazer de estar vivo no mundo. Acho que o você sentiu foi esta emoção evocada desde o passado e que Olinda, Recife etc. revivem a cada ano.
Trivial do Bloco da Saudade
Amanhã, depois do almoço, vou para o centro velho de Recife assistir o Bloco da Saudade. Ouvirei as canções, os frevos, as marchas. Espero que ainda esteja viva a velhinha nonagenária que, nos metros finais, se incorpora ao Bloco com seu violino.
Admirarei os cordões de segurança do Bloco, integrados por senhoras, senhores de idades, crianças, meninos.
Curtirei intensamente os jovens cantando de cor todos os frevos. E sairei daqui mais que nunca convicto de que o Brasil é Pernambuco.
Uma Tarde Inesquecível
(…) Cada vez que venho a Recife é isso: recarrego as baterias com uma energia que é puro talento, puro Brasil.
De quebra, gastei todos meus dedos me atrevendo no bandolim.
Leia aqui.